terça-feira, agosto 22, 2006

Quilómetros de "ligas de cuco" e hectares de ponto pé de flor

A concepção implacável de uma das minhas avós (a Vó), àcerca do controlo de temperamento e das boas maneiras devidos por qualquer criança (4 anos) a seu cuidado, está para os padrões da OCDE e da Comissão Europeia, como o meu desempenho e comportamento, com aquela idade e ainda hoje, estão para Portugal, e igualmente requer-se a demonstração mensurável do progresso e do aperfeiçoamento alcançados, mediante o uso de indicadores.
Assim, no caso dessa minha avó, o meu às vezes hipotético incumprimento escrupuloso de algum dos seus requisitos, que ELA definia como indispensáveis, era a razão mais do que suficiente, para me remeter ao sossego, horas a fio, sentada num banquinho com o "riscado" de um desenho "tirado" de uma revista qualquer de sua eleição (salvo erro, era a "Modas e Bordados", "Fada do Lar" ou qualquer coisa que o valha) - para eu reproduzir o rebuscado traçado - a duras penas, altos choros e muitas picadelas de agulhas - num bordado execessivamente "empetecado", coloridíssimo e interminável, executado com milhões e milhões de pontos pé de flor, num paninho (sem fronteiras) imaculado que se tornaria, invariavelmente, irreconhecível e encardido depois da minha laboriosa, contrafeita e carpidíssima intervenção. Após a tarefa executada (sempre a difícil contento da Vó), a ordem do universo, imposta no seu entender, ficava reposta.
Também, quando eu queria muito qualquer coisa, lá vinha a Vó absoltamente impassível, com uma sua "proposta irrecusável e irresistível" - vulgo chantagem pura e dura - reclamando em compensação, a umperiosa necessidade de eu lhe apresentar, antecipadamente e em contrapartida, uma tira de "tricot" com, uns 5 cm de largura e X metros de comprimento (o comprimento X variava, exponencialmente em "muuuuiiiitos" metros, com as insistências e ou sucessões dos meus diversos quereres). Esta tira quilométrica, a que ela intitulava "as ligas do cuco", era também tricotada manualmente com restos de lãs coloridas, que ela amontoava cuidadosamente num cesto, para os devidos efeitos. As "ligas de cuco" produzidas, tinham uma aplicação bem curiosa e bem imaginada, que um dia lhes contarei.
No meio tempo, ela dizia-me sempre ao ouvido e em segredo, muito baixinho, qualquer coisa como "no pain no gain", até a obrigação estar totalmente concluída! Cumprida a chatíssima e quilométrica tarefa, invariavlmente, vinha a minha recompensa, que era o só o que EU queria.
Os "standards comportamentais" no entender da Vó (tal como os da OCDE e os da Comissão Europeia, etc., etc.,) jamais podiam ser sujeitos a discussão, negociação ou argumentação, eram os dela e isso bastava.
Eu, ou pegava ou largava os instrumentos de troca ou de ressarcimento, e FIM! A opção muitíssimo conveniente seria nunca "largar" porque, caso contrário, as tarefas recrudesciam, multiplicavam-se e dificultavam-se....
Do meu lado foi assim, da pior maneira possível que aprendi, a bordar em ponto pé de flor e a tricotar a malha simples... para não falar, já hoje, na famigerada Tabuada dos 7, mas isto é uma outra estória.
Depois da Vó, não aprendi rigorasamente mais nada, que mereça realmente a pena saber! Sobreviverei muito bem, e sempre, apenas com os ensinamentos dela.
Esta sequência de procedimentose e metodologia duvidosos, mal comparadas, ilustram muito bem o jogo de forças e de vontades desiguais entre a da OCDE, da Comissão Europeia, da UNESCO, da Globalização, etc, quando confrontadas com a inapetência endémica de Portugal, para o que deve fazer (não falo do que Portugal gosta ou do que quer ou não fazer, por ser perfeitamente irrelevante).
Tal como dizia, hoje, Bruno Proença, no assunto Economia, da Edição Impressa do Diário Económico sobre a Taxa de desemprego, 2006-08-21 06:30 :
"....Para isto, precisa de recursos humanos qualificados que são precisamente os que mais sofrem neste momento com o desemprego.Isto mostra dois fenómenos: os empresários ainda têm muito para mudar na concepção dos seus negócios e o sistema de ensino nacional tem que ser reconvertido.
Muitos dos licenciados que enfrentam o flagelo social do desemprego vêm de cursos superiores que não interessam a ninguém ou então de áreas saturadas."
Eu diria que se Portugal não for a bem, irá bem a mal! A reconversão não é fácil de executar-se, mas é fácílimo conseguir-se:
Para todos os Sectores do País deve ser pormenorizado um Plano (rigorosíssimo, plurianual e efectivamente) Estratégico de acção-responsabilização-execução-orçamentação - é muito laborioso ("ligas do cuco"), mas custa menos do que parece.
Na plano PORMENORIZADO (não listas de coisas vagas ou imperceptíveis) e orçamentado devem ser contempladas e expressas, as exigências e os critérios de financiamento/subsídios/custos, que por sua vez devem ser implacávelmente cumpridos porque, se não, NÃO!
Quem se aguentar no balanço, continua porque é imprescindível, quem entender que não quer cumprir, deve saltar rápido fora da carroça, passe a expressão, porque só atrapalha e atrasa o processo de sobrevida de todos os outros.
Não espero de nenhum dirigente político que seja milagreiro, mas exijo de todos coerência, lógica, transparência de decisões, contenção absoluta de proteccionismos ou favoritismos de conveniência, e muita, mas mesmo muita intransigência - Portugal está muito afastado do perfil que lhe seria conveniente em matéria "de boas maneiras" necessárias à sua sobrevivencia, nos tempos actuais e, à cautela, deve mandar só quem pode, e obedecerem todos os que têm juízo!
Tenho a certeza que Portugal precisa e fará "Quilómetros de «ligas de cuco» e hectares de ponto pé de flor"e, no fim, só ganhará com isso! Por isso, quanto mais depressa melhor!! Tenho até a desfaçatez de ter a certeza que ninguém ganhará nada com troca-tintas, golpadas e trapalhices a que nos acostumámos - já todos nos "topam de gingeira e à légua".
Tal como a minha Vó dizia, todos ganhariam muitíssimo tempo e poupariam esforços inúteis, se concordassem imediatamente com ela. Podem crer, tinha razão!
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"Nós e os outros" - vejam por vós se, mal ou bem comparados, podemos continuar com este padrão:

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