domingo, julho 23, 2006

O ano de 1995 mandou perguntar se vimos por aí ...

Habituámo-nos a dispensar orientação estratégica para o que quer que façamos e, por preguiça ou comodidade, optamos por ser superiormente geridos, por pontos de vista de uns quantos "lugar-tenentes do momento".
Assim, depois de nos conformarmos com opções imediatistas de qualquer "voluntarista delegado", só nos restam três opções:
a) confiar na nossa boa estrela guia - para que não tenhamos problemas;
b) esperar por um qualquer milagre - em caso de azar;
c) conseguir laçar um bode expiatório para lhe transferirmos responsabilidades e, à falta de melhor, um qualquer governante em funções, que esteja mais à mão, serve bem para o efeito.
Não assumimos a quota parte de responsabilização pelas nossas omissões - nem nos damos ao trabalho de preparar argumentação fundamentada, para reivindicar os "direitos"; tomamos os maus resultados eventualmente decorrentes, como inerentes ao nosso "fado" conectado às coordenadas geográficas do país quando, bem vistas as coisas, não olhamos de frente os problemas, preferimos enlatar o olhar - na maioria dos casos, só para não sermos vistos...
Se um plano de intervenção, em muitos casos, é um instrumento inútil, já o planeamento é um procedimento indispensável - e neste, devem registar-se formalmente por escrito, respostas inequívocas a múltiplas questões, uma das quais é a identificação formal da responsabilização das decisões tomadas; e aqui está a nossa maior falha de cidadania - não assumimos nem exigimos responsabilização - e as consequências são, via de regra, demolidoras das nossas confiança e esperança no futuro.
De entre muitos exemplos que ilustram o que acabo de dizer, e que todos nós poderemos completar e acrescentar, sintetizam-se nas figuras seguintes (clicando no link anterior podem consultar imagens de melhor qualidade).
Mostra-se bem que, no período de 21 anos de registos, se verifica um decréscimo demográfico, quase constante, da ordem de 23,850 alunos por ano, a frequentarem o Ensino Básico, e mesmo depois de passados os efeitos do prolongamento da educação obrigatória, o número de alunos do Ensino Secundário está também a decrescer cerca de 12,000 estudantes por ano, desde o ano lectivo de 1995/1996.
Paralelamente, sem explicação da tutela ou das entidades envolvidas, exibe-se em simultâneo uma dinâmica positiva do número de cursos, de vagas e naturalmente de recursos humanos dos ensinos politécnico e universitário público/privado (Eixo da direita, séries de cor verde do primeiro gráfico).
As figuras seguintes mostram que a velocidade reactiva de ajuste ao decréscimo de alunos, foi superior nas instituições privadas e nos politécnicos públicos do que a das universidades públicas, no que diz respeito à redução do número de cursos ou do número de vagas. Não admira portanto - nesta perspectiva restrita, desconsiderando que o processo de Bolonha (iniciado em 1999) não vai ser implementado com rigor - que o número de docentes, em alguns pares de formações-instituições se torne excedentário.
Estranha-se muito é que num futuro próximo - com decréscimo de alunos, em plena época de contenção do "déficit público" - sempre pelo lado da despesa pública - se permita que o subsistema afectado seja precisamente o Politécnico Público, por duas ordens de razões - este subsistema de formação está, por enquanto, muito mais próximo do tecido produtivo actual, mas sobretudo porque é muito mais barato (75% para similares "outputs") porque - de acordo com o Background Report do suporte da avaliação do sistema português de educação terciária, pela OCDE - o orçamento de estado destinado à educação terciária, em 2006, reparte-se assim: Institutos Politécnicos Públicos - 3,383 Euros/aluno e 91,496 alunos; Universidades Públicas - 4,403 Euros/aluno e 148,089 alunos.
Esta opção de se concederem mais vagas a universidades, das que saem mais caro ao país, em algumas formações - exemplo TECNOLOGIAS, não se entende. Bastava acertar-se a pirâmide, para a educação terciária custar ao país cerca de 50 Milhões de Euros por ano, mais barata e muito mais eficaz por se reduzir a relação de custos/benefícios.
Ora muito bem, a respeito destas incongruências e inconsistências políticas, o ano de 1995 quer saber aonde estão agora os responsáveis, pelas decisões tomadas, durante perto de uma década, em que ao invés de contenção se constata uma expansão, a esmo, dos recursos humanos necesários à Educação Terciária?
Ninguém sabia? Não me digam!
Se isso fosse verdade, então toda situação seria muitíssimo mais grave, mas certamente que se sabia e, então, trata-se apenas de uma desfaçatez consentida... lá chegaremos. Mas, o que não é aceitável é pensar-se que o montante poupado permitiria fazer face os custos totais/integrais anuais a mais do que 1500 docentes do subsistema politécnico.
Só que os responsáveis de então, tal como os actuais, estão como sempre, "no bem bom" e quem pode ter que "pagar o pato" são, precisamente, os mais adequados às formações necessárias, a quem se criaram expectativas, e que não tiveram nada a ver com a situação grave que lhes pode ser criada, independentemente, do argumento de custos nacionais já apresentado.
Alguém está a pensar em soluções VIÁVEIS E JUSTAS, para se ultrapassarem estas dificuldades, que ajudámos a instituir com o nosso silêncio, minimizando agora os prejuízos de todos? ELAS (as soluções) EXISTEM! Só que ocupam tempo, dão trabalho, e a sua estruturação é cansativa...
Pois é! ....
Parece-me que ninguém quer pensar nisso...
Estamos todos demasiado ocupados em criar, diversificar e a "inovar" o que só podem ser mais valentes encrencas, para o futuro dos outros todos (que o nosso fique bem acautelado,...) - daqui a dez anos teremos uns quaisquer governantes para xingarmos, e para lhes transferir as nossas responsabilidades ....
Se, ao menos, os nossos governantes não fossem Portugueses, teriam a vantagem de não pensarem, como os restantes "patrícios", exclusivamente, nos próprios ego e umbigo.
Presentemente, estamos muito bem encaminhados, para colectivamente pularmos da frigideira para a fogueira.
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Referências consultadas:

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