sábado, novembro 11, 2006

Fairy-words

Ontem recebi, por mail, uma cópia *.pdf de um documento intitulado: «Cerimónia de Abertura do ano académico - Discurso do Reitor Prof. António Sampaio da Nóvoa». Como sou uma leitora obsessiva-compulsiva e também omnívora, li o discurso.
Ah! E até "achei" muito bem, desde logo, porque tinha uma grande vantagem: é curtinho, economiza a mioleira dos leitores, porque está recheado qb. de citações muito conhecidas, também recorre a uns pozinhos de terminologia própria (chavões ou de lugares-comuns) de conceitos tidos - só agora, em Portugal - como muito avançados e moderninhos, tais como "responsabilidade social", a vantagem de se "reterem os cérebros", e «patati, patátá, etc.,...».... enfim, como todos os discursos semelhantes dos nossos reitores, este também era de circunstância, e também esclarecia o povo: "A Universidade de Lisboa compromete-se a acolher e dar condições de trabalho aos melhores estudantes que venham a ser formados no "âmbito destas cooperações" (referindo-se aos acordos com o MIT e a CMU) e apressa-se a acrescentar as condicionantes do compromisso: "... o que será possível se houver um reforço efectivo das instituições universitárias"; depois, espetou extemporânea e textualmente umas farpazitas às metodologias não convencionais do MCTES (mais do que conhecidas, por todos, há pelo menos uma década) e conclui - 6 páginas depois de referir a redução do OE de 2007, os "cortes cegos", etc. , etc. - que "a sociedade portuguesa pode contar com a Universidade de Lisboa".
Depreendo agora que sim, a sociedade Portuguesa pode contar com a Universidade de Lisboa desde que lhe pague o que esta entende que lhe é devido.

Quando acabei de ler pela primeira vez o documento, coloquei um PONTO FINAL no assunto, já que não me pareceu que acrescentasse rigorosamente nada, ao que todos sabem ou, pelo menos, pensam que sabem.

Só que, comecei a ouvir, daqui e dali, elogios consideráveis ao conteúdo do referido documento, e procedentes de vários quadrantes...
Ao princípio, nem prestei atenção, mas depois desconfiei que me tinha escapado de certeza qualquer coisa importante, e fui reler. E, não é que me escapou mesmo!!!...

De facto, encontrei no texto uma originalidade, melhor uma inovação - o Senhor Reitor da Universidade de Lisboa exige (só agora???) que "as verbas a atribuir no âmbito desses programas -- (referindo-se aos acordos MIT e CMU e quejandos) nas quais «naturalmente» (mas, naturalmente, porquê??? tratar-se-á de uma condicionante institucional genética?) a Universidade de Lisboa está incluída -- que sejam objecto de concursos públicos e de uma exigente avaliação externa (independente, transparente, rigorosa)." ?!?!?!?!
Omessa?!!!?! Pasmei!
Ainda bem que este MCTES não dá ouvidos nenhuns a nada do que se diz por aí; e este caso é um paradigma do que espero que não dê confiança - porque diabo se iriam fazer (agora???) concursos públicos para se atribuírem verbas que já se sabe, pelos protocolos subscritos internacionalmente, para o que é a quem se destinam? - Só se fosse para "parecer bem" ao povoléu - tal e qual como aconteceu, recentemente, com "os concursos públicos" abertos para financiamento das OTIC e das avaliações institucionais pela EUA. Houve, nestes dois casos, alguma preocupação em publicar os critérios de apreciação em Edital? Ou nota explicativa da selecção efectuada? Não?!! Ah! Pois não. E, mais, não me lembra de ninguém se queixar, e não me lembra do Senhor Reitor se ter queixado.... e a Universidade de Lisboa, se não me falha a memória, foi beneficiada.
Se há uma coisa que este MCTES tem mesmo de muito boa, é justamente não disfarçar nada sobre o que ele quer fazer e assim, valha a verdade, pode até fazer "asneiras" mas, ao menos, não perde, nem faz perder, tempo nenhum para as executar...
Se o país quisesse de facto intervir, como deveria, na política de desenvolvimento do sistema educativo terciário, teria que jogar em antecipação e há que tempos, por exemplo:
Este MCTES:
1º- Publicou, como deveria, alguma Lei Orgânica que especifique bem as atribuições do MCTES? Não!?! Pois não! Alguém pediu contas?! Não!?! Pois não!
2º - Estabeleceu com a cooperação de todas as instituições de Ensino Superior, que objectivos teriam que ser assegurados para o sector? Não!?! Pois não! Alguém pediu contas?! Não!?! Pois não!
3º - Discutiu e definiu com todas as Instituições de Ensino Superior o que era necessário ser feito no conjunto, e o que seria espectável de cada uma? Não!?! Pois não! Alguém pediu contas?! Não!?! Pois não!
4º - Estudou com todas as instituições de Ensino Superior, como priorizar a orçamentação de todas as actividades necessárias e, em caso de insuficiência de recursos, qual o esforço extra (mesmo que fosse financeiro) que teria que ser garantido por cada uma? Não!?! Pois não! Alguém pediu contas?! Não!?! Pois não!

Então de que nos queixamos afinal? Salvo seja, de que é que se queixa agora o Senhor Reitor?
Falta de meios financeiros? Sim, deve ser disto, porque o resto, percebemos pelo discurso, que que não lhe falta mais nada.
Pois... Senhor Reitor,... então,... lá terá, como todos os outros portugueses e instituições, que ir para a fila, porque é exactamente assim que todos também pensamos.
Também sabemos que com meios financeiros à descrição - sobretudo, se forem obtidos à custa de "cortes cegos" nos outros - qualquer instituição ou pessoazinha é, em si mesmo, um portento de virtudes, capacidades intrínsecas e de magnanimidade.

Tudo mais, para mim, são "fairy-words"... um jogo de palavras!
(Fonte da imagem e do título do post - http://freegames.jumora.net/puzzle-word/fairy-words.php).

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