quarta-feira, novembro 08, 2006

A culpa é das botas do Gogo (1)

Não há nada como uma boa inundação para gastar o tempo, que tanto pode ser:

- Uma inundação real das verdadeiras, como as que afligem cá o meu lugarejo (transformando qualquer das nossas duas ruelas em pistas de "rafting" em águas bravias) sempre que chovem dois ou três pingos seguidos;

- Aquela outra inundação metafórica psicológica que resulta da ausência de total do senso lógico e de liderança estratégica do ensino superior português, a par da meteórica enchente de eventos dispares muito banais mas sempre, provincianamente, muito mediatizados pela nossa comunicação social e, naturalmente, muito aclamados pelos felizes beneficiados.
Para ser mais justa, terei que me lembrar também das resmas e resmas de disparates políticos e financeiros que vêm afligindo educação terciária Portuguesa, e todos os seus arredores - durante, pelo menos, as 3 últimas décadas, que muitos de nós testemunhámos com toda a complacência.
É bom reconhecer que fomos também nós que acostumámos mal todos os nossos senhores ministros e dirigentes de primeiras, segundas e/ou de enésimas águas a fazerem sempre, exclusivamente, o que lhes apetecia ou convinha.

Como é que é possível que os responsáveis máximos pela representação de instituições de ensino superior, só agora é que se estejam a dar conta dos disparates que vitimizam uma necessária e VERDADEIRA Política de Educação Terciária, mas circunscrevendo ou orientando, sistematicamente, as suas intervenções aos revezes financeiros das próprias instituições que, directamente, "dizem que governam" (ver, por exemplo, aqui, aqui ou aqui - e isto são só exemplos....)?

  • Preocuparam-se honesta e ATEMPADAMENTE, em exigir e assegurar a execução de um "cronograma físico detalhado" para a implementação do processo de Bolonha - para a GENERALIDADE do SISTEMA DE EDUCAÇÃO TERCIÁRIA EM PORTUGAL, impondo a participação EFECTIVA de um grupo de acompanhamento independente, que soubesse exactamente o que e como fazer? Não? Pois não?
  • Importaram-se em algum passo do processo com os alunos que serão, de certeza, os mais afectados? Não? Pois não?

Então agora queixamo-nos (isto é, eles queixam-se) de quê?

De serem AGORA lesados financeiramente? E aquelas outras instituições, que foram sempre passadas para trás, nos sucessivos governos?

A meu ver - e tomara que eu esteja a ver muito mal - o lado financeiro imediato da problemática da nossa educação terciária, mesmo sendo muito grave, é o que menos prejuízos irá causar a Portugal. Quando se empenha a qualidade do futuro da educação terciária dos nossos jovens, os danos podem tornar-se desproporcionados e muito fora do nosso controlo mesmo especulando-se sobre as consequências previsíveis, à luz das mais benévolas estimativas.

Entretanto, o actual MCTES está a fazer, exactamente, o mesmo que todos os outros que o antecederam, apenas o que lhe apetece e muito bem lhe convenha e, eventualmente, pode convir também a alguns outros mas não, necessariamente, aos actuais queixosos, e que só se queixam agora porque foram, por hipótese, também directamente preteridos.
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(1) "There's man all over for you, blaming on his boots the faults of his feet" - deixa de Vladimir (Didi), em "À espera de Godot" (Samuel Beckett), sobre o facto de Estragão (Gogo) se queixar do desconforto provocado pelas suas botas e de, não mais que de repente, resolver descalçá-las, sem lhe aliviar o mal estar dos pés.

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