domingo, novembro 19, 2006

Externalidades da corrosão

Por razões que não vêm ao caso, ultimamente, tenho dedicado um pouco de atenção à multiplicidade possível das suas origens e ao manancial de consequências inquietantes da corrosão - sabemos também que a corrosão, como todos os problemas sérios, é controlável recorrendo a soluções técnicas, conceptualmente, até simples se efectuadas, preventivamente, com base em leis e regras fundamentais.
Também registei que uma larga maioria das catastróficas ocorrências decorrentes corrosão se explicam pela incapacidade de gerirmos correctamente a sua prevenção ou correcção atempada, o que é o mesmo que dizer-se ""erro humano"" atribuível à inconsciência, à displicência ou à intencionalidade - não será mais ou menos isto que se passa com as políticas de gerência da nossa educação terciária, ciência e tecnologia em qualquer dos subsistemas?
Por exemplo, até eu que sou desligada, já estranhei neste "blog", em 25 de Outubro (post "as manhãs difíceis das noites ao luar") que não sejam dadas novas, nem "mandadas", nem alvíssaras sobre as dezenas de propostas de mestrado do subsistema politécnico. O Senhor Presidente do CCISP a 16 de Novembro também declarou para a comunicação social que nesta situação indefinida se encontram 84 mestrados -????! É muita coisa para se alegarem "esquecimentos"....
Se, à primeira vista, considerarmos a multiplicidade de mestrados já oferecida pela subsistema universitário, parece ser irrelevante o que quer aconteça às propostas de mestrados pelo politécnico... a verdade é que não é bem assim, porque:
1º - Se existiam/existem cursos de licenciatura bietápica com 4 e 5 anos nos politécnicos, e considerando o nosso folclore, melhor a nossa etnografia social, podemos pensar que uma boa parte dos alunos que se tenham matriculado no primeiro ciclo da licenciatura teriam de alguma forma a expectativa de algum dia concluírem o 2º ciclo dessa mesma licenciatura bi-etápica --em 2004/2005 (pré Bolonha) ofereceram-se 484 Cursos, proporcionando um total de 14.292 alunos inscritos pela primeira vez, nestas formações; a redução de tempo de formação, após adequação das licenciaturas bietápicas, ocasiona que as competências que anteriormente eram potencialmente atribuídas foram muito prejudicadas.
2º - A maioria das instituições politécnicas resolveu, e muito bem, atender às expectativas dos seus alunos e gastou tempo a planear as suas propostas de formação ao nível do 2º ciclo, tendo-as entregues até 31 de Março de 2006. Como foram elaboradas 84 propostas, com certeza que não foi exagerada a oferta de mestrados dos politécnicos, e fariam muito bem face a cerca de 1680 vagas de acessos a mestrados (até agora - 15 de Novembro, as vagas beneficiariam apenas ~12% das potenciais entradas nas formações iniciais politécnicas) e não chegando a 8,0% do contingente total de alunos matriculados no 2º ciclo deste subsistema nesse ano lectivo.
3º - Admito que nem todas as propostas reúnam as condições necessárias ao cumprimento legal dessas intenções. Mas, francamente, não podem ser não aprováveis todas as formações de mestrado propostas pelos politécnicos (extensões "avançadas" de formações iniciais de três anos)! E, muito sinceramente, o que não podem é permanecer "per ómnia sæcula sæculórum" como propostas "isentas de despacho" ou com "despachos confidenciais" - os alunos e os encarregados de educação precisam de ser informados, para não falarmos das instituições proponentes!
4º - Admito que, para a verificação das condições instrutórias das propostas e da sua apreciação pedagógica/científica haja necessidade de tempo. Mas, já lá vão oito meses!!!!??? E, ...nada?!
Daqui a pouco teremos que começar a pensar nas comemorações e nos bolos de 1º aniversário...
5º - Admito que o "check-list" instrutório seja razoavelmente simples de ser verificado e, por isso é um procedimento rápido, mas se o atraso resultar do facto de ser exigível uma avaliação científica-pedagógica já me soa mesmo muito esquisito. Eu explico:
Quando foi da altura da implementação das licenciaturas bietápicas instituíram-se equipas de apreciação, cujos elementos eram concorrentes uns dos outros. Penso eu, que se deve ter optado pela máxima de "uma mão lava a outra..." e com isso chegámos às complicações dos dias de hoje - se bem que, por norma à época, os cursos de licenciatura bietápica eram só autorizados se não implicassem acréscimos de custos...?!?!?
Actualmente, essas equipas também existem?
Se essas as equipas de concorrentes-juízes não existem, porque levam então tanto tempo a serem emitidos os veredictos sobre essas propostas?
Se as equipas existem, só podem ser nacionais - as propostas não foram todas elas redigidas em Português?? - e aí percebe-se muito bem a Infinita Eternidade de todo o processo...
Se, efectivamente, foram mais uma vez constituídas equipas avaliadoras de concorrentes-juízes é inadmissível, porque actualmente, actuam em condições de competitividade incomensuravelmente mais renhida. Neste caso, as equipas não servem para nada, a não ser para "empatar" - e, se for este o caso, dou-lhes um 20 na escala 0 a 20, - o seu trabalho de "empatas" atingiu a perfeição!
Antes porem não deveria, por analogia, aplicar-se a legislação da concorrência nacional e europeia, também a estes casos?
Mas, com isto tudo, quem ganha?
5.1 - Algumas instituições universitárias ganham?
Sim! - porque auferem de lambuja candidatos aos seus mais do que muitos mestrados, a partir daqueles alunos que não poderão prosseguir os seus estudos em instituições politécnicas, apesar de em alguns casos (não serão muitos, é verdade, mas existem!) até reunirem muito melhores condições de formação nas suas instituições iniciais. Atenção que, este preciso "ganho" não é provisório - é definitivo! E, é definitivo porque digam-me o que fará um aluno matricular-se futuramente no subsistema politécnico para depois se ver forçado a transitar para outro subsistema? Não deverá logo começar pelo princípio, sem ter que, previamente, ficar de molho "num outro alguidar"? - quer dizer basta um ano nestas condições, para se inviabilizarem as admissões ao 2º ciclo de formação no politécnico e, pior, a afectarem gravemente o interesse de muitos alunos em sequer frequentarem o primeiro ciclo do subsistema..., a não ser em casos muito particulares.
5.2 - algumas instituições politécnicas ganham?
Sim, porque enquanto não estiver nada definido serão todos, igualmente, prejudicados e a qualidade das suas formações serão, equitativamente, postas em dúvida. Também, será sempre mais difícil uma intervenção política organizacional de espectro de aplicação geral...
5.3 - a tutela ganha? Oh! Sim, sobretudo, a facção dos "shifts" orçamentais porque pode sempre alegar-se, e bem, que não se está propenso a financiarem-se formações que não são, efectivamente, disponibilizadas com a "qualidade" mínima exigida - seja lá o que isto for - sobretudo, se precisarem de fazer outros investimentos preferenciais, como é o caso - seja lá no que for.
E, com isto tudo, quem perde?
5.4 - os alunos perdem?
Sem dúvida, porque muitos poderiam, em alguns casos, beneficiar de formações de excelente qualidade, adequadas, e ajustadas ao exercício profissional efectivo, sem se verem obrigados a mais uma adaptação, sem auferirem de vantagens evidentes!
5.5 - o país perde?
Sem dúvida, porque vai vivendo sem garantias das formações que paga, e pagando por vezes muito mais caro por serviços que...a bem dizer,....mas,... não digo!
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O que é que quero eu dizer com esta "arenga" toda?
Muito simplesmente que: continuamos todos a fingir que não existem oportunismos, e continuamos a pagar excessivamente caro por eles - prejudicamos instituições que se preocuparam sempre, seriamente, com as formações oferecem e até empenhamos o futuro de "milhares de jovens" ou, tal como mostra a imagem deste "post" de uma consequência BENIGNA da corrosão, o caudal (neste caso da educação - o financeiro) que entra nessa jarra serve só para esbanjar, sem que ninguém efectivamente o aproveite!
Mas, como dizemos todos ou como, pelo menos, todos deixamos dizer - "o governo" (seja lá quem for) que pague as contas, aliás, não serve mesmo para mais nada!

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