quinta-feira, dezembro 28, 2006

O problema do ensino superior Português é "não ser icterícia por uma unha negra"

Por desfastio ou puro vício, andava eu a peregrinar, pelas notícias "online" e dei de caras com um artigo do Jornal Notícias, subscrito por Alexandra Marques, intitulado "Universidade do Porto é a que produz mais doutorados no país".
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Toda a gente já sabe que, para uma larga banda da nossa comunicação social, muitas instituições de ensino superior fazem tudo de tudo, e de tudo fazem "excessivamente" muito, por isso, não tive qualquer interesse em apurar pormenores sobre a produtividade da referida instituição, mas o mesmo já não digo sobre o seguinte extracto da mencionada notícia:
"Endogamia e mobilidade na universidade portuguesa" foi o tema do debate sobre por que é Portugal o país da Europa com maior índice de endogamia, ou seja, de contratação de docentes da própria instituição em detrimento de candidatos externos - 91% face aos 88% da Espanha, muito longe do 1% da Alemanha.
Um inquérito realizado pela OCES a 3800 doutorados mostra que de, 2000 a 2004, 43,7% ingressaram de imediato na instituição em que obtiveram o grau académico e, quatro anos depois, essa taxa era já de 57,5%. "
Mantendo-se a taxa de formação a nível de doutoramento (porque, na verdade, há um acréscimo médio anual de 315 doutorados desde 2000, e em 2005 já eram 1.177 - ver aqui no Quadro 7) a par das condições descritas no artigo do JN, "o deadlock"* do ensino superior, reforçado por práticas continuadas de endogamia, custará todos os anos aos cofres públicos, mais de 76 Milhões de euros, valor este que crescerá anualmente, duplicando a cada 4 anos.
A pergunta que faço é: se não estaremos nós a produzir doutores, apenas para produzirmos mais doutores que possibilitem a ampliação de maior número de doutores, porque a comprovar-se a informação do artigo, fica demonstrado que os mais do que 50% dos doutorados produzidos pelas nossas universidades não podem aspirar a qualquer outro horizonte profissional, para lá das fronteiras das suas instituições de origem, ou de entidades pouco claras, delas derivadas - caso de parques de base tecnológica e das mais diversas e imaginativas iniciativas embrionárias de pseudo-empreendedorismo estatal - e tudo isto parece ser financeiramente inviável, em países com problemas tão primários, como ainda é o nosso.
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Por causa da lógica ou da falta dela nas políticas de educação em Portugal, que transformaram todo o sistema num paradoxo ingovernável, fui reler uma passagem do Catch-22 de Joseph Heller, que aqui transcrevo:
"....His specialty was alfalfa, and he made a good thing out of not growing any. The government paid him well for every bushel of alfalfa he did not grow. The more alfalfa he did not grow, the more money the government gave him, and he spent every penny he didn't earn on new land to increase the amount of alfalfa he did not produce. Major Major's father worked without rest at not growing alfalfa. On long winter evenings he remained indoors and did not mend harness, and he sprang out of bed at the crack of noon every day just to make certain that the chores would not be done. He invested in land wisely and soon was not growing more alfalfa than any other man in the county. Neighbors sought him out for advice on all subjects, for he had made much money and was therefore wise. "As ye sow, so shall ye reap," he counseled one and all, and everyone said Amen."
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É, é isso mesmo: o ensino superior parece estar a tornar-se num estranhíssimo e intricado problema de saúde organizacional que "só não é icterícia por uma unha negra", porque se fosse icterícia seria tratável, e se o não fosse "o doente" teria rapidamente alta.
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PS 1 - apesar disto tudo, ou talvez por causa disso, estou a ficar totalmente insensível - nem ligo nada para questões de endogamia - porque esta é apenas mais uma das consequências nefastas de opções instituicionais com pouca atração para o arejamento do seu património de saberes/valores, para além dos próprios muros, e que se sentem bem a viver em territórios bem demarcados, preferencialmente, protegidos pelos poderes públicos; pois até "acho muito bem" e têm toda a minha bênção! Isto claro, desde que não argumentem insuficiência de recursos financeiros e que, para ultrapassarem os seus sufocos de "caixa", há que "racionalizar a rede" não explicando a ninguém como, mas deixando depreender aos não iniciados, que a racionalização implica natural e necessariamente "encerrar escolas/cursos" não especificados, podendo ser quaisquer umas/uns desde que nunca as suas/seus próprias/próprios - são os costumazes adeptos de Metodologias NIMBY, tão em voga em Portugal.
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PS 2 -* A imagem do post é um "deadlock" e o assunto está explicado pelo Departamento de Computer Science, do Rensselaer Polytechnic Institute (aqui), onde fundamenta bem situações aplicadas a questões informáticas, mas generalizáveis a outras tais como a descrita para o ensino superior português e a da imagem, por:
"In order for deadlock to occur, four conditions must be true:
  1. Mutual exclusion - Each resource is either currently allocated to exactly one process or it is available. (Two processes cannot simultaneously control the same resource or be in their critical section).
  2. Hold and Wait - processes currently holding resources can request new resources.
  3. No preemption - Once a process holds a resource, it cannot be taken away by another process or the kernel.
  4. Circular wait - Each process is waiting to obtain a resource which is held by another process".
PS 3 - Pois, eu não sei não, mas se não estamos exactamente assim e por "aí", estudando o "mapa da mina", não dá muito para duvidar, sobre as coordenadas do lugar.

1 Comentários:

Anonymous Poderoso Caballero disse...

Aquí estamos...

quinta dez 28, 10:12:00 da tarde 2006  

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