sábado, março 29, 2008

"Governances" pessoais

Depois de alguns anos, hoje, revi uma pessoa minha conhecida, contadora de casos e, como não podia deixar de ser, fui uma ouvinte bastante divertida das histórias que só acontecem a alguém como ele.
Em relação, a um dos contos, acabei por me sentir, como dizer? Intrigada? Ambivalente? Bom,... Não sei,... Resolvam os meus caros e raros leitores, como se sentiriam, depois de saberem isto:

Trata-se de uma pequena narrativa, que vou tentar recontar-lhes ao preço de custo:
Um pastor de ovelhas e cabras montanhesas, passava a vida com o seu modesto rebanho de um lado para o outro, subindo e descendo morros e valados.
Nos seus caminhos, via com frequência quase diária, fizesse chuva sol ou neve e durante um bom par de anos, um rapaz equipado de botas de montanhismo, um variado sortimento de aparelhómetros electrónicos, e ferramentas diversas que incluíam duas bengalas de escalada e uma pequena enxada e, permanentemente, hiper-carregado com uma mochila atafulhada de pertences, da qual transbordavam, em equilíbrio perigosamente instável, uma máquina fotográfica e um portátil sem fios.
De espaço a espaço, sob as copas das árvores, o rapaz construía cuidadosamente uns montinhos de terra e de folhas caídas, que marcava com umas espias, fotografava e anotava muitas informações, num mapa que iluminava o monitor do seu computador.
Periódica e sistematicamente, desfazia os montinhos, separava e recolhia amostras, que embalava cuidadosamente e, derreado, transportava tudo de volta ("via-se mesmo" que era a duras penas) até desaparecer no horizonte, ou por trás do morro mais próximo. Tempos a tempos, repetia as suas intermináveis tarefas que, aos olhos do pastor, lhe pareciam já ritos, ou penitências de uma crença estranha, muito mal resolvida. Terminava os dias a parecer que queria que outros começassem logo, para fazer tudo de novo.

Mês atrás de mês, assim se repetiam as lides do observador (o pastor) e do observado (o rapaz).
Um dia, o pastor não resistiu, e aproximou-se do rapaz, e - entre a oferta de um naco de queijo, de um gole de vinho e de um cigarrito de enrolar - à queima roupa, tiveram o seguinte diálogo:

[Pastor]: Que mal lhe pergunto companheiro, o que faz o senhor, sempre tão aperreado, aqui, nestas paragens a que não pertence, para se castigar assim tanto.

[Rapaz]: Estou a cumprir as tarefas de um projecto de investigação, pagam-me para isso, lá na capital, e serei obrigado, a dar resposta ao tempo de degradação das folhas destas árvores, nesta região, por causa de garantirmos um desenvolvimento sustentável da mata.

[Pastor]: Quer, então dizer, que o meu amigo consegue governar a sua vida assim?
Todos aqui da zona sabem e circulou o braço, circunscrevendo o rebanho, que essas folhas aí desaparecem, no máximo, em 3 anos! ....2 anos e picos, se os invernos, forem brandos...'tá aí um dinheiro, tempo, saúde e feitio bem empregues...

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